terça-feira, 15 de julho de 2008

Dois de carne, por favor

Enfrento minha primeira real experiência como jornalista trabalhando para alguém. Eu e mais dois colegas de curso fomos contratados por uma assessoria para fazer a cobertura de um evento nacional de cavalos quarto de milha aqui em Bauru. Estamos trabalhando desde o final de semana passado e seguimos até sábado agora. A experiência está sendo muito válida. Como entrevistamos dezenas de pessoas diariamente, aprendemos a lidar com uma infinidade de situações que não aprendemos na faculdade.
Mas deixando o estágio de lado, vamos falar do que realmente me incomoda.
O evento acontece no Recinto Mello Moraes, que está localizado nas proximidades de bairros carentes da cidade. Catadores de latinhas, engraxates, pedintes e crianças transitam pelo local diariamente em busca de uns trocados.
O que vejo lá, todos os dias, são coisas que vejo todos os outros dias de minha vida, mas desta vez, a realidade nunca fora tão contrastante.
Todos os dias entrevisto fazendeiros, agroboys, cowboys...chame-os como quiser. Os cavalos que montam valem uma fortuna e a grande maioria deles possui mais do que dez animais. Os competidores ganham prêmios em dinheiro, às vezes carros, motos e assim vai. São pessoas muito ricas e não consigo nem calcular o montante financeiro que circula em um evento como esse.
As botas de avestruz custam no mínimo trezentos reais; a alimentação mensal de um cavalo gira em torno de trezentos a quinhentos reais; o treinamento vai de seiscentos a mil e tantos e o sêmen de um desses campeões vale no mínimo cinco mil reais.
Uma das coisas que me deixou particularmente brava, era o valor dos comes e bebes no recinto. Como estamos trabalhando o dia inteiro, temos que fazer uma boquinha por lá mesmo. Tudo é muito caro porque os comerciantes já sabem qual o perfil do público, então, não se surpreenda se tiver que pagar sete reais por pão, carne e queijo.
Hoje, enquanto eu comia meu salgado e reclamava para mim mesma o absurdo de pagar três reais por ele, uma cena me chamou a atenção. Chegaram dois meninos bem pequenos, sujos e maltrapilhos, com os pés e roupas muito encardidas. Eram parecidos, provavelmente irmãos. Logo atrás deles, um homem: bem vestido, boa pinta e com um sorriso no rosto.
- Boa tarde! - ele me disse.
- Boa tarde! - eu respondi e sorri.
Fiquei observando o que os menininhos estavam fazendo ali. Eu olhava para eles e pensava que puxa, eu ali, ingrata, reclamando do preço do salgado que sim, está caro, mas que graças a Deus eu tinha a chance de poder comprar e comer, e aqueles meninos ali nem isso podiam fazer. Eles ficavam apenas "namorando" a estufa. Meu coração se contorceu de tal forma que comecei a chorar imediatamente. Ando meio chorona, mas aquilo realmente me chocou. Eu olhei a minha volta e vi pessoas que têm muito, mas muito dinheiro mesmo e aqueles meninos estavam ali, e nem três reais para comer eles tinham.
O homem. Voltemos ao homem.
Enquanto eu tentava disfarçar as lágrimas, percebi que ele conversava com o dono da lanchonete em que eu estava. De repente, vejo os menininhos pulando e sorrindo.
- Você quer qual salgado? - perguntou o dono da lanchonete.
- Esse é de quê?
- É de carne.
- Então eu quero esse e ele também!
- Muito bem. Dois de carne então.
O homem gentilmente brincou com os meninos:
- Não contem para ninguém que eu comprei esse lanchinho pra vocês porque eu não sou rico como esse pessoal aí não, hein!
Ele olhou pra mim novamente, sorriu e voltou para seu local de trabalho.
Fiquei ali, sentanda uns minutos, perplexa, pensando em como este mundo é do avesso. Vemos essa situação todos os dias, mas eu precisei vê-la em contrastes mais claros para conseguir me lembrar que às vezes não fazemos nada pelo próximo e ainda reclamamos do que temos. O nosso pouco pode ser o muito de muitas dessas crianças por aí. Eles apenas queriam comer e comida é algo que não deveria faltar a nenhum ser humano.
A visão dos olhos deles brilhando ao abocanhar o salgado é algo que vai ficar na lembrança...definitivamente.

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