Duas almas se sentam em uma mesa de café.
- Dois chocolates quentes, por favor.
Aquilo era só o início de algo que, na verdade, já havia começado. Era possível ver o avesso dos dois. Na verdade, só não enxerga além do visível quem não quer porque não lhe convém. Havia uma enxurrada de palavras a serem faladas; várias dúvidas a serem solucionadas e um medo que não queria ser revelado.
E foi o tudo.
O que já havia começado foi um parto. Nunca imaginei que conseguiria dizer as coisas que queria. Foi como se a cada frase, um elefante saísse caminhando de dentro de mim com umas toneladas a menos. Dizer o que sentia me fez bem, principalmente porque me fez desaguar e me deu uma certa sensação de limpeza interna. Algumas convivências são diferentes e especiais em seu próprio modo. Essa, em particular, me faz “parir” uma sensação nova com certa freqüência e ao mesmo tempo que isso é muito bom, me faz conviver com os fantasmas que não me deixam. Incrível como descobrimos que não conhecemos muito da gente e quando pensamos que estamos entendendo algo, é apenas o início do quebra-cabeças.
Voltemos ao café.
As palavras saíram sem dificuldade alguma, pois quando se está com alguém em quem se confia, a franqueza reina. Há algo de muito doce no olhar dele, uma captação realmente parabólica para absorver os dilemas despejados ali. Dúvidas, medos, incertezas e talvez uma gota de esperança. Otimismo não é uma qualidade necessariamente nossa, embora deva admitir que gostaríamos de tê-la. É, na teoria tudo parece menos complicado, porque simples nunca é. Ele me ouviu, me aconselhou e expôs o que realmente pensava. Um simples gesto me fez entender muita coisa. Como eu não havia pensado nisso? A grande verdade é que às vezes me menosprezo de tal forma que não consigo enxergar o que está bem claro ali, na minha frente. Quando achamos que não queremos mais uma coisa, basta que alguém a deseje para que o sentimento de posse retorne. Pois é, aquilo não te pertence. Mesmo!
Ele havia sacado o lance em apenas algumas palavras e nunca vou esquecer aquele gesto numa mesa de canto daquele café. Ele foi bem na mira e teve olhos pra enxergar o que eu não via. Certeza não há, mas que parece ser, parece! Talvez as pessoas não se sintam assim, tão grandiosas como achamos que elas sejam. Talvez sejam apenas marionetes delas mesmas.
Ele se despiu. Sua alma ficou tão clara e nítida que podia reluzir. O enxerguei de uma forma que nunca havia enxergado. Ele trouxe à tona tudo o que mais o afligia e foi quase como se ouvisse os fantasmas cochichando em seu ouvido. Uma sensação de querer fazer algo para limpar toda aquela história e não deixar marcas em alguém que não merecia ter passado por tanta dor. Uma pessoa que te faz querer falar por horas, que não apenas escuta, mas ouve; que partilha com você a opinião mais sincera e verdadeira que possa te oferecer, alguém simplesmente muito fácil de amar, seja em que aspecto for. Pude ver que ele estava revirado e que muitas feridas ainda permaneciam em seu âmago. Realmente, acho que apenas o tempo irá curar o que agora parece não ter cura.
No futuro, pode ser que ainda haja alguma cicatriz, mas não tenho dúvidas de que alguém muito melhor trará os curativos certos para que tudo sare da melhor maneira possível e na verdade, uma alma sem cicatriz é uma alma sem histórias para contar e eu espero, de verdade, que muitas mesas de café sejam cúmplices do muito que ainda está por vir.
0 comentários:
Postar um comentário