Quando adentrei sua sala, meus olhos logo começaram a lacrimejar. Ele me lê pela pele e me compreende de uma forma bem peculiar.
- Ê minha meninona! O que foi? - ele se levantou e me deu um abraço. Eu chorei.
Ele me olhou, tocou minha pele e viu as várias marcas, os vergões e vermelhidões por todo o corpo. Minhas mãos estavam de um jeito nunca vistos antes. O pior de tudo, é que além de estar feio, doía.
- O que foi que abalou seu coração dessa forma? O que vejo aí não são apenas angústias. Algo realmente mexeu com você. - Me fitava com os olhos esperando uma resposta.
Eu disse a ele como me sentia, o que estava me incomodando e chorei mais. O choro parecia não querer parar nunca. Minha pele pulsava e o sal das lágrimas queimava ainda mais a pele de meu rosto. Eu queria dizer a ele o que estava mexendo tanto comigo, mas não conseguia. Como falar de algo que eu não aceito? Que renego? Mas eu sabia que aquilo estava desencadeando várias outras coisas e por isso me encontrava daquela maneira. Na verdade, ainda me encontro.
Nesse período de reflexão, percebi que muitas fichas caíram e sinto que antes, o que achava ser necessário, vejo que é absolutamente descartável. Hoje quero viver em paz com meu silêncio e creio que essa é uma das maiores dificuldades para mim, mas nada que o tempo não faça e não há nada que a gente não aprenda.
Continuo negando, a pele continua marcada, gritando pelos poros aquilo que eu não quero aceitar. Não sei ao certo como me sinto. Tenho um certo medo bobo, mas creio que minha fase adulta, mesmo em meio à tantas crises, chegou pra ficar.

1 comentários:
Na falta de palavras próprias recorro à algumas já escritas:
"O senhor teve muitas e grandes tristezas, que passaram, e me diz que até sua passagem foi difícil e desenganadora. Mas, por favor, reflita: essas grandes tristezas não terão passado, antes, pelo âmago do seu ser? Muitas coisa não se terá mudado dentro de si?
(...)
Falando novamente em solidão, torna-se cada vez mais evidente que ela não é, na realidade, uma coisa que nos seja possível tomar ou deixar. Somos nós. Podemos enganar-nos a esse respeito e agir como se não fosse assim; nada mais. Mas quão melhor é admitir que se é só, e mesmo partir daí. Naturalmente, começaremos por sentir tonturas, pois todos os pontos em que costumávamos descansar os olhos nos são retirados..."
"Cartas a um jovem poeta", Rainer Maria Rilke
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