Sinto, bem no fundo de mim mesma, um cansaço mental além do físico. Esses últimos dias foram bem puxados e o estágio me fez crescer de uma maneira diferente - inesperada, eu diria.
Foram oito dias observando cavalos e pessoas, convesando com elas e ouvindo histórias. Sei que estou em uma fase extremamente emocional, mas as lágrimas que derramava lá não eram lágrimas comuns ou, poderia dizer, de situações que geralmente me fazem chorar.
Aprendi muitas coisas sobre o meio jornalístico. Já me considero parte desse mundo porque apesar de todas as circunstâncias, foi ele que escolhi para trilhar parte de minha caminhada. Sempre notei que meus colegas de curso, vez ou outra, comentavam ou tiravam aquele sarrinho básico do meu jeito de ser. Às vezes faço comentários afiados; às vezes faço todo mundo rir com algum comentário que faço, mesmo que fazê-los rir seja a última coisa que eu queira. Sou muito transparente e muito sincera. Quando entrevisto alguém, me entrego para aquela pessoa. Faço um diálogo. Quero saber o que ela tem a me dizer e se por ventura, eu achar que posso acrescentar algo, eu digo. Não tenho vergonha de fazer perguntas que sejam idiotas porque pergunto na humildade. Tenho uma abordagem simpática - creio eu - e olho as pessoas nos olhos. Muitos de meus amigos - digo isso porque já vi muitos fazendo esse tipo de coisa - querem realmente parecer jornalistas. Há essa idéia idiota de que os estudantes ainda são uns bobinhos que não sabem de nada e aí, para sanar essa idéia, eles tentam se portar como profissionais e aplicam tudo aquilo que ouvem na teoria na universidade. Tudo muito sério e muito certinho. É claro que devemos saber como nos portar em determinados locais e com pessoas, mas sempre há um jeito de ser você mesmo.
Perdão à teoria, pois ela sabe que a adoro, mas a prática, é você quem faz. Não há uma maneira certa de entrevistar alguém. Há o seu jeito e ele pode dar muito certo e pode dar muito errado. Temos que descobrir como podemos melhorar e trabalhar em cima disso, mas enfim...meu ponto aqui é o seguinte: tiram sarro de mim sim pelo meu jeito de ser. Vou citar um exemplo: na Virada Cultural Paulista que aconteceu em minha cidade, a cantora Mariana Aydar veio se apresentar. Uns dez estudantes, inclusive eu, ficaram à espera por uma chance de entrevistá-la. Quando ela desceu, as perguntas e o jeito jornalístico sério começaram. Eu havia escrito um bilhetinho para meu colega entregar à ela, já que achei que não a veria e ele tinha uma entrevista marcada com ela após o término do show. Como conseguimos entrar, eu guardei o bilhete e esperei uma brecha para me pronunciar. Com toda a humildade do mundo e sem nada de tietismos, disse que havia adorado a roupa e as sandálias que ela estava usando e que eu nunca havia visto uma cantora pessoalmente com tanta presença de palco como ela. Disse que ela tinha uma energia radiante e que seu jeito simples e humilde me encantaram e completei: - você é uma fofa!
Preciso dizer que meus amigos jornalistas se entreolharam com dizeres de "ai meu Deus, o que ela está falando...não acredito". Eu disse isso do coração e olhei nos olhos dela. Falei o que queria, o que havia sentido durante sua apresentação. Assim que acabei de falar, ela passou pelo meio dos outros estudantes, me olhou nos olhos e disse: - Fofa é você! E me deu um abraço muito forte e um beijo. Fiquei extremamente surpresa. Ao final da entrevista, ela deu um beijo em cada um dos estudantes que lá estavam, mas todos se surpreenderam quando ela veio me abraçar. Mas o que quero dizer é que eu não ligo de ter esse jeito panachão. Eu sou o que sou sempre e até agora, tenho colhido ótimos frutos.
Estava entrevistando um homem agora nesse campeonato nacional da raça quarto de milha. Ele havia acabado de ganhar uma modalidade quando fui entrevistá-lo. Ele manteve a pose a entrevista inteira, mas no final, tirei os óculos de sol, olhei em seus olhos azuis e fiz uma pergunta sobre a vitória. O choro o invadiu. Fiquei assim, até um pouco chocada com a reação dele. Achei tão bonito vê-lo se desnudando para mim, uma garota com aspirações de jornalista que ele nunca vira na vida e ali, atingi sua essência. As lágrimas escorreram de meus olhos também porque me emocionei e quando ele as viu caindo, chorou mais. Com certeza esse será um dos momentos que mais lembrarei. Há também um garotinho de oito anos que não queria dar entrevista de jeito nenhum. Liguei o gravador e comecei a jogar conversa fora com ele dizendo que não iria mais entrevistá-lo. Sou absolutamente apaixonada por crianças e esse menino era uma criança linda. Conversei com ele, fiz todas as perguntas que precisava e quando terminei, ele me perguntou: - Ei, e a minha entrevista? Eu respondi que já havia feito naquela conversa e então, ele sorriu e disse: - Puxa, se eu soubesse que você era legal, eu não tinho dito não pra você. É que essas entrevistas são muito chatos e só me fazem perguntas bobas. Você é legal! Você torce pra eu ganhar de novo amanhã? Aí você pode conversar comigo de novo! - Não preciso dizer que por dentro pulei de alegria. Conquistar crianças não é algo fácil. Elas são extremamente verdadeiras e sentem exatamente o que você transmite.
Foram muitas histórias, cada qual com sua importância. Uns falavam muito, falavam bem; outros eram monossilábicos e falavam muito mal, mas cada pessoa tem uma história e o aprendizado que tive foi gigantesco.
Outra coisa que me deixou assim, chorona, foram os animais. No começo morria de dó dos cavalos porque achava que eles se cansavam muito nas competições e ficava pedindo pras pessoas não baterem com o reio neles na hora de correr. É o que eu disse, imagine um lugar cheio de pessoas que competem, lidam com cavalos o tempo todo e uma garota pedindo pra eles não darem com o reio no cavalo. É esse o jeito panachão a que me refiro. Eu falava com dó e apertava os olhos quando ouvia o barulho do reio descendo no lombo do cavalo. Eles me tranquilizavam e diziam que achavam bonitinha minha preocupação. Conquistei várias "amizades momentâneas" com isso. Quando as provas de laço começaram, aí eu virei do avesso. Quase tive um troço de ver os bois e bezerros sendo laçados e levando choques para seguirem em frente e passarem de um lado para outro. Eu chorei várias vezes e reclamava muito para eles. Aquilo, para mim, é uma terrível crueldade. Eles fazem aquilo por hobby e judiam muito dos bois e bezerros. O mais engraçado foi que eu ficava ali, no cercado, e um dia um mocinho estava passando os bois de um lado para o outro quando de repente, bem na minha frente, ele deu um choque em um bezerrinho. Eu dei um super berro e não foi proposital, simplesmente saiu. Eu já estava tão puta com aquilo tudo que comecei a chorar de raiva ao mesmo tempo. O moço levou um super susto e me perguntou se tinha acontecido alguma coisa. Eu disse pra ele que os animais já sofriam tanto dentro da pista sendo laçados, que era absolutamente desnecessário ele dar choque nos coitados simplesmente para eles andarem. Ele ficou tão chocado com a minha atitude que a partir de então, começou a tocar os bois e bezerros com um saquinho de pão ao invés de dar choque e ele me disse: -olha moça, por você, porque você chora de ver eles sofrer, eu parei de dar o choque neles. Eu tô tocando com um saco de pão. - Nem preciso dizer o quanto isso me deixou feliz. Pelo menos o choque eu conseguira aliviar.
Fiz amizade com um potrinho. Todos os dias eu ía lá conversar com ele e quando eu chegava, mesmo que ele estivesse de costas, ele ouvia minha voz, se virava, e colocava parte da cabeça pra fora pra eu fazer carinho. Conversei tanto com aquele potrinho. Percebi que ele tinha um "defeitinho" na pálpebra direita. Se eu pudesse, comprava ele só pra ficar conversando comigo. Ele era tão meigo, tão carinhosinho. Uma fofura.
Esse post está enorme, mas escrevo pra mim mesma. Quero me lembrar dessas coisas. Essa convivência com os animais deixou meu coração mais mole ainda. Cada dia eu chorava por alguma coisa. Chorava sozinha, geralmente conversando com o potrinho; vendo os bois sofrer debaixo dos óculos de sol ou com as crianças e catadores de recicláveis que passavam por lá em meio àquela gente rica. Uns com tanto, outros com nada. Aquilo me quebrou o coração e às vezes, enquanto eu conversava com o potrinho, eu falava sobre as desigualdades, sobre os pezinhos encardidos daquelas crianças, sobre os velhinhos que deveriam estar descansando em suas casas nessa idade e que estavam ali, pegando latinhas embaixo do sol quente para garantir o mínimo que necessitavam. São por essas e outras coisas que eu sou do jeito que sou. Prefiro ser emotiva e panachona do que ter um coração duro. Não tenho vergonha de chorar nem de dizer o que penso quando quero falar. É assim que sou, esse é meu jeito e não vou mais me reprimir nem me cobrar por isso. Nesses dias de estágio eu vi que sou boa no que faço e que faço bem feito. Não estou sendo pedante, mas creio que às vezes, justamente por causa desse meu jeitinho transparente e amigável de ser, é que eu consiga crescer profissionalmente. Quero que as pessoas conversem comigo de igual pra igual. Quero ser sempre a Paula e não a jornalista. A jornalista perde a essência e a mecanização de falas e fatos é o que menos quero. Gosto de ouvir histórias, de sentir emoções e de pensar que quando contamos algo, somos nós ali. As palavras criam vida, formam um enredo e esse enredo não tem classe, não tem idade, não tem cor. Histórias sempre serão histórias e o que as torna diferente é a maneira de contá-las. Uma história sem sentimento é como um pássaro sem asas. Interprete como quiser.
Por essa semana, meu coração está mole, a pele marcada, os olhos prontos a derramar lágrimas a qualquer instante, mas não me importo. Meu crescimento é cada vez maior e a cada dia que passa, me sinto alguém melhor. Ao menos nessa esfera...

1 comentários:
Saudades de ti.
Postar um comentário