Ela me pediu, disse que ajudaria a enfrentar meu medo da morte. Eu chorei. Não entendo porquê sinto tanta vontade de escrever hoje. É como se quisesse vomitar todas as palavras que aprendi durante a vida toda. "O seu problema é o corpo", ela dizia. Sim, é o corpo porque minha mente não o separa da alma em circunstâncias normais. Por que eu deveria pensar que essa boneca grande é o que resume minha essência? Eu não estou aqui, eu não sou isso e não me encontro nela. Eu sou alma, alma inquieta, que não pára, não descansa e que quer entender.
Há algo que me deixa ainda mais inquieta e não consigo entender porquê. Acho que é o mistério, o fato de não saber nada e ao mesmo tempo achar que sei algo, mas mentira. É tudo muito embaçado e nada é translúcido. Queria ser assim, misteriosa, calada e embaçada, mas infelizmente, como não me desprendo dessa "matéria de boneca" que na verdade penso não ter nada a ver comigo, continuo deixando transparecer em seus olhos o quanto a invisibilidade a atinge.
Eu digo à ela que a boneca não importa. A boneca é matéria, ela é alma. Sua alma - inquieta - é alma. É um coração e é pura. Para ver uma alma limpa basta enxergar além do visível. A matéria, a boneca, qualquer um vê, mas para ver a alma, tem que ser um desbravador de essência, um oculista cardiológico para enxergar tudo aquilo que o olho da matéria jamais viu. É na alma que as coisas mais bonitas se escondem. A boneca, mais cedo ou mais tarde, irá se desfazer. Por mais que eu, a boneca, não aceite isso, é a lei da vida. Quero gritar de medo, quero urrar em pânico pedindo socorro e uma garantia de que não me perderei em meio à terra.
Eu não gosto de você, boneca. Por quê você me fere tanto assim? Se eu não gosto de você, porque tenho tanto medo de não tê-la mais um dia? Se sou alma, para quê você me serve? Se os outros me enxergam boneca, é porque escondo a alma. Por que se esconde? Por que me atemoriza? Por que me faz chorar? Por que despreza tanto a boneca que lhe abriga?
Medo, medo, medo. O que pode se fazer com uma boneca assustada? Por que escolhem ver apenas a boneca e não vêem a alma?
Olha, boneca, você só pode ser alma mesmo porque até seu cabelo te rejeita. Ele não nasce em todos os bulbos, é fino e não tem força para crescer e dizem que a beleza de uma mulher está em seu cabelo; a alma rejeita a boneca, essa, nunca a ouve e muito menos faz o que a alma pede. O que me resta? Quem é que escreve isso? Sou corpo ou sou alma? Não sou nada. Sou apenas um coração amedrontado com medo de morrer. Espero que um dia isso passe e enquanto isso, pesquiso todos os significados de alma que ela me pediu, já que eu mesma me denominei alma inquieta. Queria agora apenas um abraço...era tudo o que queria pra desaguar meu choro de pânico.
Ela pediu, eu fiz:
ALMA
do Lat. anima
s. f.,
parte incorpórea, imaterial do ser humano;
princípio da vida;
conjunto das faculdades intelectuais e morais do homem;
espírito;
pessoa;
a vida;
a existência;
chefe;
caudilho;
agente;
motor principal;
colorido;
coragem;
autor;
entusiasmo;
paixão;
animação;
carácter;
índole;
consciência;
sentimento;
coração;
força;
generosidade;
superfície interior da boca do cano de uma arma de fogo que pode ser lisa ou estriada;
peça dos instrumentos de corda que se colocam abaixo do cavalete;
pedaço de madeira entre a sola e a palmilha.
E aí vem Nietzsche e ferra com tudo:
"Aos que desprezam o corpo, quero dar meu parecer. O que devem fazer não é mudar de preceito, mas simplesmente despedirem-se do seu próprio corpo e, por conseguinte, ficarem mudos. [...] Tudo é corpo e nada mais; a alma é simplesmente o nome de qualquer coisa do corpo. O corpo é uma razão em ponto grande, uma multiplicidade com um único sentido, uma guerra e uma paz, um rebanho e um pastor. [...] Quero dizer uma coisa aos que menosprezam o corpo: desprezam aquilo a que devem a sua estima". (NIETZSCHE, 2000, p. 51)
Já não sei mais o que pensar...


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